Por Maurício Dehò
Alguém disse que “tomar gelado” faz mal para a voz? Bom, Jeff Scott Soto parece ter provado que isso é apenas lenda, de tanto que cantou e de tanto que tomou suas famosas Caipiroskas, no último show do TALISMAN em São Paulo e penúltimo da banda, que já anunciara o fim de suas atividades no encerramento desta turnê, presenteando o Brasil com suas derradeiras apresentações.
Cerca de vinte para a meia-noite, foi a vez de a festa dos americanos/suecos do TALISMAN começar de verdade. Ao som de uma introdução bizarra, com uma voz falando nos PAs, Jeff Scott Soto (voz e teclado), Marcel Jacob (baixo), Jamie Borger (bateria) e Brian Young (guitarra) adentraram o palco e já foram recebidos com o calor brasileiro em “Falling”, faixa que abre o derradeiro disco, “7”. Como se quisesse dar uma prévia do que aconteceria nas próximas duas horas, a faixa mostra toda a técnica e a indiscutível qualidade de Soto (ex-Malmsteen, ex-Journey, ex-Axel Rudi Pell...), com tudo o que ele pode mostrar: agudos lá em cima, passagens mais rasgadas, tudo com muita personalidade.
Se o vocalista já tinha dito “Preparem as caipiroskas!" antes mesmo de chegar ao Brasil, logo no primeiro intervalo declarou o “Caipiroska Time”. E dá-lhe caipirinhas gogó abaixo...
Logo em seguida veio a clássica faixa de abertura do Humanimal, “Colour My XTC”, mostrando bem do que o resto da banda é capaz, principalmente na levada de baixo do excêntrico carequinha, Marcel Jacob, outro que mandou ver na pinga com limão. Os outros dois integrantes também são dignos de nota, o baixinho Brian Young, detona na guitarra, com muito feeling e precisão, e o batera Jamie Borger é cheio de graça com as baquetas, mas também manda bem atrás do seu kit. Bom mesmo é aquele ar de Hard Rock das antigas, sempre bastante despojado, ainda mais pelo estilo de Soto no palco, cheio de caras, bocas, gestos e trejeitos, que tornam impossível olhar para outro lado.
O set seguiu com músicas como “Coming Home” e “Break Your Chains”, com a galera indo ao delírio e cantando tudo junto. Alguém acha que acabaram as caipirinhas? “Se Sammy Haggar pode ter mulheres trazendo bebida ao palco, eu também posso”, disse Soto. O pedido foi uma ordem, seguido pela funkeada “D.O.A.P.S.”, com grande refrão e os backing vocals (tem algo mais importante no Hard Rock?) sempre a postos de Jacob e Young.
O show foi extenso, principalmente no número de músicas (com medleys e outras junções), em cerca de duas horas, mas conseguiu dar uma boa passada na carreira de sete álbuns (lembrando as duas partes do “Humanimal”, de 1994). Passaram por faixas como “Day By Day”, do debut homônimo (1990), “Here 2day, Gone 2day”, do Truth (1998) e “Give Me a Sign”, do “Genesis” (1993), chegando ao divertido solo de Jacob, excelente nas palhetadas em seu baixo, com trechos de músicas como “Woman From Tokyo”, do Deep Purple.
Outras passaram na mesma levada como em “All Or Nothing”, entermeada por “Outta My Way”, “In Make Believe” e a bela “Back 2 The Feeling”, mais uma do disco mais recente, antes de Soto mostrar seu lado de instrumentista, no teclado. Ele realizou um grande medley: teve “Heaven's Got Another Hero”, “All I Want” e até “Just Between Us”, com a volta de TEMPESTT ao palco, sendo encerrando com “Since You've Gone”.
Para quem não sabe, o TEMPESTT tem uma grande história com o vocalista, já que foi sua banda de apoio na primeira viagem do americano ao Brasil, em 2002 (a última parceria foi em 2005). O resultado foi a amizade, além da participação especial no primeiro álbum dos paulistanos, lançado no último ano.
Mas voltando ao TALISMAN, após o extenso medley, que teve até dueto na voz com o batera, o destaque foi “I’ll Be Waiting”, simplesmente emocionante, com todos (literalmente) berrando o refrão. E se a noite é de festa e Hard Rock, foi momento de resgatar um clássico do Bon Jovi, com um trechinho de Livin’ On a Prayer. Tudo no maior improviso, com a banda parando de tocar até para tirar fotos com a galera, num clima totalmente descontraído.
Como em algum momento o show teria que acabar, pelo menos o encerramento foi em grande estilo, com trechos de "Burn" (Deep Purple) e "Paranoid" (Black Sabbath), na volta para o bis, além de “Standing On Fire” e “Crazy”. Jeff Scot Soto vestia uma camiseta do Brasil levando o seu nome. Fechando com chave de ouro, o TEMPESTT voltou ao palco – menos nervosos que na primeira entrada – e tocaram “Insanity Desire”, faixa que contou com a participação de Soto no álbum “Bring ‘Em On”. A música foi muito bem recebida, merecidamente, já que é boa por si só, mas brilha ainda mais com os vocais do americano, que precisou de um papel com as letras, nada que tenha comprometido.
Acabou? Por Jeff sim. Mas depois da gafe do tecladista, executando o começo de uma faixa do Journey (o que já havia acontecido com o próprio TALISMAN, em um dos momentos jam, e rapidamente encerrado com cara de reprovação pelo vocalista), o batera Edu Cominatto começou a marretar sua bateria. Sim, a esperada "Stand Up", do Steel Dragon (alguma dúvida que o melhor grupo fictício da história? Ele foi criado para o filme "Rockstar" e com nomes como o próprio JSS e Zakk Wylde), foi devidamente forçada pelo Tempestt e o vocalista mal pode fazer cara feia. Melhor jeito de acabar impossível.
Bom, acabou, foi o canto do cisne, ao menos foi o prometido para os derradeiros shows do Brasil. Mas Soto nunca quis dar certeza que é impossível uma reunião do TALISMAN ou um novo projeto com Marcel Jacob. Resta sonhar. E lembrar que ao menos aquele show de São Paulo não pareceu uma despedida, apenas um ótimo show da banda. Quem sabe, não?